O carro passeia pelo centro da cidade, entre as luzes dos faróis e dos postes. No banco de trás está um jovem com seus 18 anos e uma criança, não muito menor, com seis anos de idade. Os pais da criança recentemente passaram a frequentar uma das Igrejas tradicionais da cidade. É para lá que eles se dirigem.
O menino olha para a janela, como todas as crianças fazem, e começa a cantarolar uma música - se é que é possível chamar de música uma letra em que a palavra "créu" é repetida diversas vezes. O jovem não demora muito em pensar numa crítica ao garoto, mas por um motivo qualquer fica quieto.
Mais alguns metros a frente, o motorista - outro jovem, mais alto, com quase 25 anos - começa a orar em voz alta, agradecendo a Deus pelo dia. A criança entra no embalo e ora também.
"Deus" Ela diz "Obrigado porque a gente conhece a tua Igreja que é tão linda. Eu te amo, Deus". E ela continua orando, repetindo o que já disse e falando outras coisas, todas sinceras, como todas as crianças fazem.
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Não sei se isto acontece com você (provavelmente sim) mas quando alguém vem me cumprimentar durante uma reunião da Igreja, é normal que ela diga "você é precioso para Deus". Bem, não sei o que passa pela cabeça de vocês quando escutam isto, mas eu quase sempre tenho um sentimento de satisfação. Satisfação como quando um funcionário ouve de outra pessoa que o chefe está feliz com o trabalho dele.
Mas há um problema em ver as coisas deste ponto de vista. Do mesmo modo que me agradava ouvir estes supostos elogios, quando eu olhava a minha vida, minhas atitudes pequenas, minhas pequenas rebeliões, não me sentia nada confortável. E se o patrão que se agradou de mim resolve-se me responder segundo as minhas atitudes? E se a minha farsa caísse?
Acontece que este problema não gera só a insegurança. Gera a competição. Apenas um rosto aparece na placa de funcionário do mês. Por isto as críticas. Por isto o tentar olhar os outros de cima, criticando, julgando, mostrando como sou melhor. Ateus, evangélicos da prosperidade, ou tradicionais, ou ambientalistas, ou qualquer tipo de pessoa diferente de mim tornavam-se alvo de minhas críticas.
E o problema é que não são só estes outros que eram criticados. Aos poucos, mesmo minhas amizades, presentes de Deus que tenho experimentado de forma bela neste ano, passaram a receber as flechas de minhas críticas. Aos poucos, cada amigo foi sendo atingido, atacado, rotulado - até que as flechas se voltaram contra mim mesmo.
E ai entra Cristo, no meio desta pequena chacina particular. A Bíblia diz que Deus me ama. Ela diz que Ele me amou primeiro, antes que eu o amasse, antes que eu o conhecesse - antes sequer que eu tivesse nascido. C. S. Lewis diz que Deus olha o tempo "de fora", como se todo o tempo fosse um quadro, e ele visse tanto o começo quanto o final - e tudo o que acontece entre estes dois extremos. E a Bíblia concorda com isto, quando Deus diz conhecer cada um dos nossos dias.
Se ele é mesmo assim, quando ele disse que amava cada homem, ele disse que me amava - e disse isto sabendo de cada um dos meus erros, desde os grandes pecados que cometi antes de me converter. Como nenhum outro homem, ele sabia o quanto eu sou mal, e o quanto eu não mereço nada. Entretanto, mesmo sabendo tudo sobre mim, ele me amou como nenhum outro poderia, de forma intensa e completa.
Esta é a piada. O fariseu que eu era buscava agradar a Deus - mas no fim, não conseguiria nada a não ser a destruição da parte de Deus. Mas as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos destruídos, diz Jeremias. As misericórdias. Aquilo que o homem merecia, Deus sofreu em si mesmo, quando decidiu carregar uma cruz. Sua misericórdia permitiu que me amasse, e seu amor cobriu uma multidão de pecados, até me encontrar.
Sim, sou precioso para ele - mas isto não está em mim. Sou precioso, e a única base para esta afirmação é a misericórdia de Deus. Não preciso agir para ser o funcionário do mês, até mesmo porque eu não sou funcionário - sou filho de Deus, filho que ele cuida, e para o qual ele dará o melhor - ele mesmo.
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Texto meio rápido, e final confuso. Mas agora são 2h36 da manhã, e foi isto o que consegui escrever. É um pequeno relato do que está acontecendo em São José dos Campos (fotos), e espero que seja de alguma utilidade - nem que só para mim mesmo.