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| The Flying Spaghetti Monster |
- E dessa forma, caros futuros vestibulandos - Ele sempre falava isso. Aumentava a auto-estima de qualquer um - qualquer pessoal com um cérebro do tamanho de uma ameba não pode crer coerentemente e querendo usar a razão no criacionismo, ou desing inteligente, como alguns chamam para dar um aval científico a esta teoria tão verdadeira quanto às curas do "Show da Fé" - Ele parou um pouco, para tomar um gole de água eanalisar as faces dos alunos que, deslumbrados, pareciam ansiosos por mais palavras vindas daquela fonte magnífica. "E eu as darei, meus caros", ele pensou, antes de voltar a falar - A não ser, é claro, que a pessoa tenha sofrido lavagem cerebral a base de quadrinhos do Smilinguido - houve uma certa careta em sua face ao dizer este nome - ou do papo de pastores, reverendos, bispos e afins. Os mesmos que, aliás, enriquecem aos montes com o dinheiro que o povo dá a Igreja - Parou mais um pouco outro gole de água antes do Gran Finale - Criticaram os padres que vendiam as indulgências no século XV e hoje seguem os mesmo caminhos. Religião é veneno mesmo, como dizem alguns.
Com estas palavras, Adamastor, o melhor professor de biologia de Santa Catarina, e que infelizmente sabia muito bem disto e o repetia a si mesmo todos os dias, terminou sua palestra, "Criacionismo X Evolucionismo" (A qual, surpreendentemente, falou mais do ponto de vista evolucionista do que qualquer outra coisa). Conseguira fazer o que sempre planejava para um final: usar ironia, criticar os cristãos, usar palavras difíceis de calão ientífico, criticar o Smilinguido - Como uma formiga poderia ter quatro patas, usar luvas, ter sotaque, falar português e ainda por cima ser crente? -, passar um pouco pelas teorias de conspiração e criticar a Reforma. Depois, se sentou numa cadeira que havia atrás de si, fez uma cara de quem cumpriu um dever e abriu uma garrafa de água com gás. Não ouviu, porém, o barulho do gás saindo da garrafa, já que as palmas dos alunos - alguns em pé - sobressaiam na sala. Ele ainda disse, antes de tomar a garrafa, levantando a mão para que os alunos o ouvissem, "quem quiser me perguntar alguma coisa, por favor, pode faze-lo agora. Mas saiba desde já que todas as minhas fontes são bem baseadas, a maior parte com assinaturas de Nobels ou de cientistas do calão de Richard Dawkins". As palmas continuaram logo depois dele falar, enquanto tomava água, sentindo as bolhas fazendo cócegas em sua língua e garganta. Parecia que nenhum criacionista se levantara, querendo discutir. Ele até esperava que um ou dois se levantassem, mas achava que seu discurso havia sido tão bom que demoliria a fé de qualquer um. "Você Adamastor, é um gênio. Um gênio", ele falou baixo para si mesmo, enquanto continuava bebendo sua água.
Foi quando, de uma das primeiras cadeiras, um aluno se levantou, e não batia palmas. Era um jovem de óculos, meio grande e desengonçado. Seus cabelos pretos estavam um pouco desarrumados, e vestia uma camisa azul e calça jeans. "Esse vai ser fácil", Adamastor pensou, antes de levantar as mãos e pedir que os alunos parassem um pouco de bater palmas e escutassem o aluno. Quando deu ordem ao jovem, ele voltou a se sentar - "Não tem estima o suficiente para falar na frente da turma. Ou então quer fazer uma homenagem a mim" -, e falou, num tom de voz com algumas pitadas de ironia.
- Caro professor. O senhor pode me considerar um tanto quanto retrógrado, ou até mesmo dono de um cérebro de tamanho que me impediria até mesmo de andar, porém não posso deixar de ver o final dessa sua palestra como uma tripla ofensa. Primeiro a mim, depois aos meus irmãos, que cremos no Senhor do criacionismo, e em terceiro lugar ao meu Senhor, o acusando de mentiroso e falso - Adamastor se ajeitou em sua cadeira. Seu adversário também tinha uma - pequena - dose de ironia, assim como parecia pensar um pouco. "Finalmente eu achei um criacionista que pensa um pouco. Vai ver ele é crente há pouco tempo, e por isso ainda preserva um pouco de inteligência. Ou ainda não leu os quadrinhos do Smilinguido" ele pensou, e riu um pouco de sua própria ironia, antes de se levantar para debater.
- Desculpe-me meu caro, porém minhas críticas não foram totalmente contra o cristianismo. O que eu quis foi mostrar os fatos concernentes a esse debate, que vem sendo praticado já há um bom tempo. Se você acha que os fatos foram contrários a você, seus amigos e seu (sic) deus, a culpa não é minha, mas sim de sua crença. A culpa de uma mentira, não é a da mentira em si, mas de quem a prega - "Engula essa, criacionista babaca". Porém o jovem não pareceu transtornado. Continuava com seu ar de ironia, e um certo júbilo em seus olhos.
- Sim. É claro que o senhor não quis criticar a religião. O senhor não é contra o cristianismo, criacionismo ou desing inteligente, como alguns chamam para dar um aval científico a esta teoria tão verdadeira quanto às curas do "Show da Fé" - E um sorriso apareceu em sua face - Mas sigamos: sou criacionista, mas sei continuar uma discussão. E faço uma pergunta, professor: eu sou meio ignorante nesses meios de ciência, mas qual seria a crença quanto à teoria de existência dessas pessoas? - O professor olhou para o jovem sem entender bem o que ele dizia - Melhorando minha pergunta: esses homens eram criacionistas, evolucionistas ou de outra crença, como a do "Monstro Espaguetti Voador"?
- Evolucionistas, é claro. Eles pensavam - "Eu esperava mais de ti, pobre criacionista".
- Sim, professor - O aluno olhou para o chão, como se pensasse numa defesa - porém, pelo pouco que sei dessa teoria, a evolucionista, ela afirma quase existir uma certa natureza atrás de toda a evolução, que, através do acaso, fez com que pudessem chegar ao estado atual pessoas como eu, você e até mesmo - embora tenha minhas dúvidas - Dan Brown. Porém, pode haver um livro de Richard Dawkins sem que tenha sido escrito por ele?
- Bem… - "Você está melhorando. Mas eu ainda sou o Adamastor" - Claro que não.
- E ele poderia escrever sob o nome de outra pessoa?
- Sim, mas porque faria isto? - "Será que ele está querendo dizer que os livros de Richard foram escritos por outra pessoa"?
- Humildade, por exemplo, embora creia que ele seria coerente e inteligente demais para ser humilde depois de toda o trabalho que a natureza fez para montar uma mente brilhante como a dele. Porém, será que não poderia haver um criador que fosse humilde o suficiente para criar o mundo, e
não se denominar?
- Ah… - "E a espada de Darwin despedaça a cruz" - em outras palavras, "desing inteligente"?
- Não professor. - Os olhos do aluno brilhavam, e toda a sala estava prestando a atenção na conversa deles - O desing inteligente falha, porque é como mostrar o livro de Richard sem mostrar seu autor. É uma teoria que se pode se adequar a qualquer religião, assim como o evolucionismo. Para vocês, por exemplo, pode acontecer de um evolucionista crer no que diz o Código daVinci, embora digam que são inteligentes e tal. Porém o criacionismo se casa com o cristianismo, pois admite um Deus, que em vez de assinar soberbamente embaixo de sua criação, como Richard faz, assina em cada criação sua sutilmente, como um quebra-cabeça, de modo que, se olharmos bem para a criação, para o jeito que as plantas crescem, para o corpo humano, com uma mente mais aberta do que a mente aberta que vocês, evolucionistas, tem, veria a assinatura ali, na complexidade do todo. Porém, não na forma de um Deus energia, natureza, mas de um Deus que demonstra redenção, amor, mise… - Porém Adamastor aprendeu que a fama e o autoconhecimento implicam e deixar um pouco de lado a educação com aqueles que deixam de ter isso para serem mente-fechadas arrogantes, principalmente aqueles com bons argumentos, e interrompeu a fala do jovem.
- Me desculpe, jovem, mas você tem que entender que a matéria dessa aula extracurricular é biologia, e não religião, e que entre os alunos aqui, que mal queriam ouvir de biologia, não vai ter nenhum que com este seu discurso religioso vai se ajoelhar perante seus pés, clamando por esse tal Deus, Jesus, e todas as outras coisas. Até respeito sua opinião, mas não posso permitir que isso continue - Ele falou. Através destas palavras, parecia que um bombardeio tinha sido jogado sobre o jovem, que permanecia com uma face tímida em sua carteira, olhando para o chão. "1x0 para os evolucionistas" Adamastor pensou, antes de encher sua mente de elogios a si mesmo. Algumas palmas começavam a aparecer quando ele ia sentando, mas o jovem voltou a falar, agora levantado, como um guerreiro em posto.
- Só mais uma coisa professor, sobre este respeito e relativismo que você prega. Gostaria de fazer uma pergunta sincera ao senhor: se levarmos a biologia até o mais profundo de nossos corações, e pensarmos em cada ato como uma espécie de instinto nosso, é possível que a vida tenha algum sentido?
- Sim: fazer mais seres, procriar, e gerar filhos melhores, com uma vida boa - Ele falou. Suas palavras tinham metade da arrogância.
- Sim. E outra pergunta: já que o prazer é mera endorfina, e que ela cessa depois de um tempo, fazendo a pessoa voltar a uma certa
melancolia, há prazer real na vida? - Pela primeira vez a manhã, Adamastor não respondeu com sua mente científica que estava usando até agora.
Sim, parecia não haver prazer na vida. Ele mesmo pensara nisso diversas vezes. A biologia pregava uma vida que terminava aqui, e mesmo que a pessoa tivesse
feito tudo de bom, algo podia dar errado. Ainda com os milhares de anos de evolução, havia aparecido Hitler, o presidente do Irã e até mesmo Dan Brown.
Porém ele sorriu. Juntou o pouco que sabia de Karl Marx, colocou uma dose de biologia e falou, entre um sorriso.
- Na verdade, não há muito prazer contínuo. Sendo assim, ou você busca o prazer sempre, e faz o que quer, ou busca a religião, o chamado
"ópio das nações".
- Quanto a primeira parte, eu gostaria de perguntar depois ao senhor se já viu alguém que "fez o que queria" e sempre fez o melhor para si mesma a todo o mundo. Se todos fizerem o que quiserem, o direito que alguém reclama sempre vai ser menosprezado. E, em segundo lugar, isso que você chama de religião, "o ópio das nações", é baseado que a religião foi criada pelos homens, correto? - O professor fez que sim com a cabeça - Mas será que não foi o contrário? Será que a criação da criação não é criação dos homens?
- Ai, meu caro, - E ele quase deu um salto de júbilo. Sim! Haveria de acabar com o criacionista agora, de uma vez por todas - vai de cada
um. Mas, voltando a minha palestra, os fatos que eu levantei criticam o criacionismo. Se, como você disse, o criacionismo é ligado ao cristianismo, e
se um cair, o outro também cai, eu creio que isto é uma mentira - Ele deu um sorriso, e esperava mais aplausos, quando o aluno disse:
- Sim professor. Sabe o que isto me lembra? Algo que, graças ao meu Deus, eu lia há pouco num livro - E tirou da mochila um livro grosso, que primeiramente Adamastor achou que fosse a Bíblia, mas depois de ver a imagem da frente, a de um leão com uma juba um tanto quanto esquisita, reconheceu um livro que seu sobrinho lia, As Crônicas de Nárnia - Como falava, professor, neste livro tem uma parte onde um paulama, um ser difícil demais para ser descrito para um evolucionista, e duas crianças, ficam diante de uma feiticeira, que começa a duvidar das coisas mais simples da vida. Diz que o sol não passa de ilusão, e que as crianças haviam olhado para uma lâmpada e dali imaginado uma lâmpada muito maior. Da mesma forma, fala do Leão, que para eles e o escritor representava Jesus, e que eles haviam visto um gato, e daí imaginado um gato maior, e dado a ele o nome de leão. Neste momento, esta criatura, Paulama, diz algo que eu considero muito importante: que, per impossible, tudo o que eu digo é mentira, e não passa de brincadeira de criança, a história bíblica e sua lógica dão de 10 a 0 em qualquer ciência que o senhor chame de verdadeira. Sua ciência te dá tudo, menos uma alegria, enquanto que Cristo pede tudo de nós, e nos dá a Ele mesmo. A própria busca de prazer, como o professor disse, acaba sendo infrutífera. Sendo assim, de que adianta fazer mais filhos, e eles mais filhos, e assim termos gerações e
gerações de pessoas que vivem apenas para descobrir que a única verdade é: não há verdade! Não á nada em que possamos nos segurar. Nem nós mesmos, já que
morremos. Isso, professor, é o mais próximo que eu posso pensar da idéia de inferno: o ciclo vicioso em busca da cenoura que nos foi amarrada em um caniço
amarrado em nossas costas, chamada felicidade, e a qual nunca conseguimos - Quando ele acabou de expor isto, o silêncio pendurava pela sala. Hoje, os
jovens não pensam muito em inferno: o mais próximo disso que pensam é quando os pais não deixam usar a internet ou sair pra balada, ou quando tem prova e tem
que estudar. Mas aquela visão do inferno, mostrada pelo jovem, ia até o mais fundo do coração de cada jovem, e do professor também. Aquela idéia de que tudo
o que se faz, o namoro, os jogos, os alimentos, tudo, não leva realmente a nada, a não ser quando eles mentiam para si próprios dizendo que estavam
satisfeitos. O sinal bateu, avisando que a palestra acabara, porém foram poucos os alunos que se levantaram para sair.
- Então, o que devemos fazer? - Adamastor disse, com, por incrível que pareça, nada de arrogância.
- Sendo assim, usando uma frase do mesmo autor que escreveu este livro - disse ele, batendo no livro preto em suas mãos -, "Se não há nada neste mundo que me satisfaça, isso significa que eu não pertenço realmente a este mundo". Creio que nossa vida aqui é só um prefácio de uma vida real e aqueles dispostos a ver isto, e deixarem de lado a mentira, e verem que Cristo é o único caminho para a verdade - aliás, ele é a verdade, e, se uma pessoa é absoluta, ele, que foi uma pessoa, é absoluta -, esses, humildes o suficiente, podem desfrutar deste céu. Mas o que vai os satisfazer mesmo não é só este céu em si, esta idéia de céu, mas a presença de Deus, que é a única coisa que pode realmente nos satisfazer. Olhe para dentro de você mesmo, e não vai encontrar nada de bom. Olhe para o mundo, e chore, mas busque em primeiro lugar o reino de Deus, e todo o mais virá. Por acréscimo.
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"E a espada do anjo decapita o demônio humanístico".