Eduardo corre por uma avenida do centro da cidade. Sente uma pequena dor no peito. Dentro da mochila, que carrega em suas costas, uma conta que tem que ser paga naquele dia, e um caderno para ele anotar as observações feitas durante a entrevista que vai fazer. Mas acontece que ele não acha nenhum banco para pagar esta conta, e já está atrasado para a entrevista. Além de todo este peso em sua mente, a mochila parece puxar seus ombros para baixo, como se pedindo um pouco de calma. Mas calma é algo que ele não pode ter.
O semáforo de pedestres fica vermelho, e logo vários carros estão andando entre o garoto e o outro lado da rua. Ele se encosta no poste e tenta descansar um pouco. Olha o relógio, e entre uma respiração e outra, reclama. Quinze minutos atrasado para a entrevista, e ele nem faz idéia de onde ficava o tal café aonde deveria entrevistar o advogado. Em teoria sabe aonde ficava o tal café Dulce Vitta, mas esta teoria não funciona agora, diante da prática.
O semáforo fica verde, os carros param, e ele começa a correr. Seu corpo dói. Sua mente dói. Sente-se perdido, olhando ao redor as placas com o nome das ruas, tentando se localizar – mas são tentativas frustradas. E no meio destas tentativas, os sentimentos que queimavam em sua mente chegam em sua boca, e se transformam numa frase de desabafo.
"Porque Tu pedes que a gente seja como criança se nos põe num mundo de adultos?"
De repente, algo acontece. O cansaço continua, a dor no peito e nas costas continua, e o relógio segue seu ciclo. Mas no meio de toda a agitação, o garoto sente Deus, o Rei do Universo, Criador dos Céus e da Terra, e seu pai, falando com ele. Respondendo sua pergunta.
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Ser responsável, independente, "dono do próprio nariz". Este é o desejo de quase todo mundo – e é isto o que nós comemoramos hoje. O dia da independência do Brasil. A bíblia também conta a história do dia da independência de um homem – mas não como um dia para ser comemorado.
Na parábola do filho pródigo, Jesus fala de um garoto que não queria mais viver na casa do pai. Poderia dizer que ele era rebelde, mas como “rebelde” é uma palavra forte, digamos que ele queria ser “dono do próprio nariz”, independente, adulto. E então pegou o dinheiro do seu pai e foi para longe de sua casa.
Mas o que era para ser a melhor fase de sua vida, quando ele começaria finalmente a viver, sem os limites do pai, acabou sendo sua pior fase. No início, ele tinha dinheiro, e consequentemente, amigos, mulheres e diversão. Porém, ele não era um bom administrador, nem do seu dinheiro nem de si mesmo, e que acabou sem dinheiro, e tendo que competir com porcos por comida. O que era para ser vida acabou virando uma espécie de morte.
Daniel Souza certa vez cantou que o problema do homem é viver independente de Deus. O filho pródigo concordaria com esta música, e nós devemos prestar a atenção nisto também. Enquanto decidirmos viver sem Deus, ou estando perto dele e não dependendo dele, veremos que não somos bons administradores, bons senhores de nós mesmos. Ser adultos e independentes (como o mundo tanto quer ser hoje) é o começo de um caminho que vai terminar na ruína.
Creio que é por isto que Jesus disse que devemos ser como crianças, mesmo em meio a este mundo. Não é uma contradição, algo estranho ao mundo – mas pelo contrário, é exatamente a nossa salvação. Depender dele, confiar que ele é Senhor sobre cada evento de nossa vida é o único meio de vivermos nos dias de hoje. É nossa vida. Quando aprendermos a descansar nas mãos de quem é poderoso para nos guardar em tudo, em todos os momentos, viveremos. Quando não andarmos mais tentando fazer as coisas pelas nossas forças, mas deixarmos que haja um pai sobre nós, deixarmos termos um Senhor, seremos livres. A cruz, na verdade, tem o objetivo de matar o que nos impede de viver, de viver eternamente. E como Cristo disse, a vida eterna é conhecer ao Pai, único Deus verdadeiro, e Jesus Cristo, enviado por Ele.
Por isto, no dia da independência, vamos comemorar nossa dependência. Comemorar aquele que morreu, ressuscitou e foi glorificado, e nos fez servos. Nos fez filhos.
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São cinco horas da tarde. O sol começa a se pôr, e Eduardo ri sozinho dentro de um ônibus. Dentro da mochila, que agora estava em cima das suas pernas, em um pequeno caderno sem capa, estavam escritas várias anotações feitas durante a bem sucedida entrevista que fizera. Ele chegou um pouco atrasado no lugar, mas as pessoas estavam lá, e ele conseguiu fazer tudo o que precisava. E embaixo do caderno está a conta que ele pagou, num banco estranhamente vazio.
“Obrigado, pai”, ele diz, olhando para o céu (ou quem sabe para algo que estava além do céu). “Obrigado, pai”, disse mais uma vez, sentindo um prazer especial quando diz a última palavra.
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“Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.”
(Mt 6.31-33)
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Este foi um texto, baseado em fatos reais, que eu já estava pensando em escrever há um bom tempo, mas que resolvi escrever para o Compartilhar por causa do sete de setembro.
E, sim, espero voltar a escrever com mais freqüencia aqui, mesmo pequenos textos. As vezes é importante ser fiel nas pequenas coisas.