Poisé.
O primeiro texto deste blog veio mais rápido do que qualuqer um esperava (até mesmo eu). Na verdade, eu não escrevi tudo isto desde que eu postei o primeiro texto da nova época. Já era um texto que eu tinha a bastante tempo no computador, e como eu tinha que colocar alguma coisa, vai ele mesmo!
Só uma nota, antes do texto: ele é meio grande (3 folhas no word). Ai, pra facilitar a degustação, dividi ele em três partes. Não sei se vai dar certo, mas estamos ai pra ver - minhas queridas cobaias humanas =D.
(Espero que ninguém me denuncia pro Greenpeace).
I - O Cachorro e seu humano.
Uma das coisas que mais deve intrigar os não-cristãos é o tal papo cristão de liberdade. Como pessoas que não podem ficar, não podem sair de noite, não podem, não podem, falam com toda a convicção em liberdade? É, no mínimo, um paradoxo! Porém esta questão de paradoxos é bem presente em todo o cristianismo, como quando, por exemplo, Jesus disse que quem quisesse viver de verdade deveria morrer. E, mesmo sendo um paradoxo à primeira vista, há uma certa lógica nele.
Por exemplo: quem é mais livre, um cachorro ou um ser humano. É meio estranha a pergunta, mas foi. Voltando, você pode até falar "ah, o homem é regido pelas leis capitalistas, enquanto que o cachorro pode escolher o que quiser sem se preocupar com isto. Logo, o mais livre é o cachorro". Sim, mas analise a questão do cachorro. Ele quer comer? Vai lá e come, e se não tiver o que comer, ele vai procurar, roubar se necessário. Ele quer dormir? Vai lá e dorme, e se não estiver num lugar apropriado, como no meio da estrada, vai para um lugar melhor e logo dorme. Ele quer brigar com outro cão, porque se irritou com ele? Vai lá e briga, morde, sem raciocinar. Se quer, faz. No entanto tenho usado em todo esse tempo o mesmo verbo para falar do cachorro: o querer. Entretanto, será que o cachorro "quer", "deseja", assim como nós, humanos, desejamos? Não seria melhor falar que o cachorro na verdade "é induzido por seu instinto de sobrevivência a"? este instinto o induz a comer, a dormir, a brigar pelo o que é seu. Não vamos analisar se estas coisas que ele faz seguindo seu instinto são "boas" ou "más", mas por enquanto espero pelo menos que o leitor tenha chego à conclusão, ou pelo menos concorde em parte, que o cachorro é de certa forma escravo de seus instintos.
E quanto ao homem? Bem, também temos estes instintos, contudo não é só eles que determinam o que o homem vai fazer. Se um homem tem fome, e vê um desconhecido comendo uma coisa perto, a primeira coisa que pensa é que deveria ir lá e pegar o que o homem está comendo a força. Mas tão logo esta indução aparece, já se depara com uma infinidade de outros pensamentos, que nos dizem que não devemos fazer isto, porque é da pessoa; que não desejaríamos que fizessem isto para nós; que quando chegar em casa teremos comida, ou que podemos mesmo comprar comida; que poderíamos pedir um pedaço para a pessoa, em vez de roubar tudo, etc… enquanto o cachorro simplesmente tinha um instinto, um norte a seguir, o homem se sente puxado de vários lados por várias opiniões dentro dele, por vários instintos, e pode fazer várias escolhas. Enquanto o cachorro tem apenas uma, e a segue, o homem pode escolher entre várias, pesar cada uma e ver qual a melhor para ele no momento. Também podemos ver esta questão da comida por outro ponto de vista: digamos que uma jovem está num supermercado e pode escolher entre comprar uma garrafa de água mineral ou de refrigerante. Mesmo sabendo que o refrigerante é mais gostoso (pelo menos para a maior parte das pessoas normais) que a água, a jovem pode escolher esta segunda, pensando ser mais saudável. E, mesmo escolhendo a água, há uma infinidade de marcas a escolher, cada uma oferecendo um diferencial, como preço, com ou sem gás, etc… O cachorro não tem isto. O que cair na rede é peixe, para ele. E também, em relação à escolha, não precisa ser sempre algo que vai nos agradar mais. Pode ser que a jovem goste muito de refrigerante, mas que escolha, mesmo que o instinto dela se auto-agradar seja muito forte, tomar algo menos gostoso e mais saudável. Novamente, não vamos analisar por enquanto se o que o homem faz no fim é "bom" ou "mau", ou então donde vieram estas convicções acerca do que é certo ou errado, se da educação, se da Bíblia, ou se de outro instinto. O que espero que o leitor concorde, pelo menos em parte, é que, ao contrário do cachorro, o homem liberdade de fazer escolhas baseadas em outras coisas que não o instinto de sobrevivência, e pode fazer escolhas que sejam prejudiciais a ele, como um homem que escolhe morrer pelo seu país.
II - Bem, tem alguma coisa errado, não?
O que falei acima sobre o homem era, na verdade, o plano inicial de Deus para a humanidade. Porém algo aconteceu, e fez com que este plano de liberdade, do homem poder realmente escolher seu próprio caminho, se perdeu no caminho. Basta olhar para o número de compulsões, que não passam se instintos supervalorizados que temos hoje no mundo. E não falo só das compulsões que recebem este nome e cujos donos são tratados como loucos, mas de qualquer vício, químico ou não, que se baseia numa volta aos antigos padrões animais, já que a pessoa não tem escolha senão suprir a necessidade. No caso da jovem que ia comprar água, por exemplo, ela pode em outro dia comprar refrigerante, ou então não comprar mais mas tendo todo um embasamento lógico para isto. Contudo, o que acontece é que muitas pessoas vêm seguindo seus vícios de maneira que só o impulso de fumar, ou de comprar, ou de roubar, importa em suas vidas, e sem nenhum raciocínio que passe, em seu cerne, de "ah, me deu vontade e então eu fiz". Com certeza este não era o plano de Deus para a humanidade. Ele queria, pelo o que temos conhecido dEle, homens que escolhessem racionalmente a Ele, mesmo podendo escolher outras coisas. Não homens que fossem escravizados por estas compulsões, por estes vícios, ou pelo nome que a Bíblia dá para eles: pecados. Sim, pode parecer estranho chamar qualquer vício (até mesmo aquele de falar mal das pessoas, ou de odiar fulano porque ele realmente é mau, mas não conseguir perdoar) de pecado, mas é assim que a Bíblia chama. Um versículo ilustra isto muito bem: "Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero".(Romanos 7:15). E o versículo seguinte, então, é ainda mais esclarecedor: "Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim" (v.16). Quando o homem sai de sua posição de poder escolher as coisas racionalmente para o estado em que faz Poe uma vontade louca de fazer isto, caso contrário não consegue viver direito, é pelo pecado. Deste jeito, voltando ao exemplo do cachorro, o homem fica num meio termo entre o homem-projeto-de-Deus e o cachorro, pois enquanto pode fazer algumas escolhas racionalmente ainda, tem algumas áreas da sua vida que se encontram escravizadas por este pecado.
III - O trevo que a gente não devia ter pego a direita (ou esquerda, dependendo do ponto de vista político)
Agora chegamos então ao ponto do início do texto: a liberdade. Em Romanos lemos o apóstolo Paulo falando sobre este problema dele não fazer o que queria. Se o livro de Romanos terminasse assim, nos restaria o desespero, ou então esperar enquanto viramos animais, cada vez mais presos de nossos desejos, de nosso egoísmo e orgulho. Mas no capítulo 8, logo nos versículos 1 e 2, lemos algo interessante: "Agora pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte". Sim, o homem estava debaixo da tendência à escravidão, mas, através da morte de Cristo, por um processo que o leitor pode se inteirar mais lendo a própria Bíblia, o homem ficou livre desta escravidão. Mas não para um "oba-oba", e ai entra o amor que o homem que foi liberto por Cristo tem de ter pelo seu mestre. Porque, na liberdade, teríamos direito de fazer o que quiséssemos, e é isto que o leitor deve entender: o cristão tem a liberdade, mesmo que seja para voltar à escravidão. Cristo não tira de nós as algemas da escravidão de nós mesmos, do nosso ego, e coloca-nos algemas dEle mesmo. Ele nos dá total liberdade, assim como o pai da palavra do filho pródigo deixou o filho ir para a cidade, mesmo sabendo que aquilo não ia acabar bem. Este é um dos pontos chaves para se entender a liberdade: somos, em Cristo, totalmente livres para escolher o nosso próprio caminho.
Mas seria sem sentido esse sacrifício de liberdade se não viesses com uma alternativa melhor. É como se uma fazendeiro alforriasse os escravos, mas que eles não tivessem pra onde ir, e tivessem que continuar na fazenda. Podiam até mesmo ser livres, e se dizer livres, ter a carta de alforria e tudo o mais, porém teriam que continuar vivendo na fazenda, e se quisessem ganhar dinheiro, comida, teriam que trabalhar, voltando a ser escravos. Todavia, Cristo, além de nos libertar, nos deu uma alternativa muito maior: o seu amor. Enquanto a escravidão se sustenta em torno do orgulho, do seu ego, a vida de Cristo se baseia no amor. Quando uma pessoa conhece a Cristo, mas conhece mesmo a ponto de poder falar, como Jó falou que "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem" (Jó 42.5), ela percebe que a vida ao lado de Cristo é realmente boa. Conhecendo a Cristo, todo aquele papo de que o fardo de Cristo é mais leve, etc… vira verdade em nossas vidas, e desta forma, fica totalmente lógico escolher viver ao seu lado, quase forçado, mas como disse Lewis, "a compulsão de Deus é a nossa salvação". E é algo que só podemos ter com esta salvação, com Deus iniciando o processo, porque antes, no poder do pecado, não podíamos viver ao lado de Cristo por mais que quiséssemos, porque seríamos destruídos pela sua santa presença. Porém, com a nova vida que podemos desfrutar pela sua morte, não só temos a permissão para andar ao seu lado, como Ele nos dá forças para poder viver uma vida nesta escolha. Porque Ele, citando novamente a Bíblia (embora um leitor não-cristão esteja achando por demais monótona e "religiosa" esta parte do texto), "efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo sua boa vontade" (Fp 2.13). Eu sei, como disse acima, que esta parte pode ter ficado meio monótona, cheia de citações e pouca filosofia. Mas, se eu vamos falar de cristãos, fica difícil fugir daquilo que os diferencia dos não-cristãos. Esta distinção entre cristãos e não-cristãos deve causar calafrios em alguns leitores, soando como sectaristas, mas apenas mostra aqueles que desfrutam desta liberdade, desta real liberdade de poder escolher o que fazer, e poder escolher pelo melhor sem ter a o nosso ego tirando o foco das coisas realmente importantes, e aqueles que (ainda, espero) não podem desfrutar desta liberdade, e servem de escravos nas mãos do pecado.
Um último recado então, voltado para os cristãos: pode ser que, depois de ler este texto, você comece a falar com mais vontade sobre a liberdade que temos em Cristo, e muito provavelmente algum amigo metido a filósofo, ou apenas um daqueles que gostam de quebrar as "crendices" dos outros fale assim "Ah, mas diz ai: eu posso fumar, posso namorar quantas eu quiser, posso fazer o que me der na telha. Desde quando um 'crentezinho' mandado pelos pastores é mais livre que eu", ou alguma variação disto. A resposta é simples: primeiro pergunte à pessoa se ela pode deixar de fazer aquilo quando ela quiser, realmente. Ele pode então dizer "ah, eu não consigo, mas ser tu fizesse, tu também não ia conseguir". Então, chegue perto, sorria e diga "eu já tenho Cristo. Não preciso de mais nada".
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Liberdade não é fazer o que é agradável, mas o que é bom.